De R$ 80 mil a R$ 100 mil: líderes do CV ordenam extorsões no Ceará para 'bancar vida de luxo' no RJ
Exigências da facção criminosa de origem carioca sobre revendas de água e provedores de internet afetaram a rotina em municípios cearenses.
A escolta policial de moradores para a compra de garrafões de água no município cearense de Banabuiú reflete a gravidade da tentativa das facções criminosas de exercer controle sobre territórios no Estado. O fato se soma a uma sequência de extorsões promovidas pelo Comando Vermelho (CV), registradas no Ceará há pelo menos três anos, com a tentativa de monopólio do jogo do bicho.
A reportagem apurou junto a um policial militar e uma fonte do Ministério Público do Ceará (MPCE) que, com o dinheiro arrecadado das extorsões, os criminosos escondidos em comunidades do Rio de Janeiro pagam 'aluguéis' de R$ 80 mil a R$ 100 mil por mês.
Os ataques se agravaram nos últimos meses e se voltaram para o comércio e serviços essenciais, como internet e venda de água mineral. Investigações apontam os responsáveis pelas ordens de crimes são lideranças da facção de origem carioca.
Proteção dentro das comunidades
O valor vai muito além de um 'canto para morar'. O delegado Harley Filho, titular da Coordenadoria de Planejamento Operacional (Copol) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), confirmou em entrevista ao Diário do Nordeste que "esta é uma taxa para se manterem lá, ficarem na proteção do crime e mantidos dentro das comunidades".
O montante é arrecadado a partir de 'extorsões unitárias'. A reportagem apurou que, no caso dos provedores de internet, os criminosos costumam cobrar R$ 10 de cada cliente cadastrado na base da empresa.
A busca é por "fechar parceria" com provedores que tenham a partir de cinco mil clientes, tendo assim, por mês, extorquido pelo menos R$ 50 mil de uma só empresa.
No caso dos garrafões de água mineral, há informação que os criminosos venham exigindo R$ 1,50 de cada garrafão comercializado.
Ameaças coordenadas
Conforme noticiado pelo Diário do Nordeste, só neste ano, foram registradas ameaças do CV seguidas de extorsões em Fortaleza, Groaíras, Alcântaras, Banabuiú, Caucaia e São Gonçalo do Amarante.
As ordens para as extorsões mais recentes em Banabuiú partiram, segundo Harley Filho, de lideranças do Comando Vermelho escondidas, principalmente, nas comunidades da Rocinha e do Alemão.
Os ataques aumentaram depois que a Polícia Civil do Ceará (PCCE) solicitou bloqueio de valores milionários das contas dos faccionados.
"Já ultrapassamos R$ 4 bilhões de bens bloqueados. Nossa missão é combate ao crime e a deles buscar vias alternativas para arrecadar", de acordo com Harley Filho.
O promotor e coordenador do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) Central do MPCE, Oscar Stefano, informou à reportagem que "o aumento das extorsões visam capitalizar o controle e domínio territorial".
"Temos percebido a atuação do Comando Vermelho efetivamente nessas cobranças, extorsões, ações que já, de certo modo, eram esperadas, porque o Comando Vermelho vem implementando no Ceará essa estratégia que eles já adotam no Rio de Janeiro há muitos anos", disse o promotor.
Como as facções impõem as ordens?
O modus operandi das facções permanece o mesmo: a ordem chega da cúpula e os faccionados locais fazem pichações em imóveis e difundem mensagens nas redes sociais pelos chamados "salves". As pichações costumam "dar 24 horas" para que as empresas parem de operar ou para que moradores saiam de suas casas; já os salves possuem instruções bem determinadas e detalhadas.
Por meio desses "avisos", os integrantes da organização criminosa decidem quais empresas podem funcionar sem sofrer sanções, geralmente formando uma aliança com empresários que se beneficiam financeiramente.
Em 20 de abril deste ano, por exemplo, o empresário Francisco Ítalo Bezerra Lima foi preso ao desembarcar no Ceará por suspeita de se aliar ao CV na tentativa de controlar provedoras de internet em Caucaia. A família dele era dona de um provedor que não sofreu ataques e sabotagens da facção.
O Diário do Nordeste obteve documentos e vídeos que detalharam as ações, que se dão por meio de ameaças, incêndios e tiros.
Um vídeo obtido pela reportagem mostra um homem mandando técnicos de internet deixarem a região. Ele chega a falar que os moradores "já sabem como funciona" e manda um dos trabalhadores falar que a instalação não deu certo. O homem também fala sobre os funcionários "já terem entendido que é pra ir embora". Ele cita ainda que há pessoas "teimosas" que insistem em outros provedores.
Em municípios como Caucaia e São Gonçalo do Amarante, o CV chegou a queimar equipamentos, deixando 3 mil clientes sem internet em janeiro deste ano.
Nos casos mais recentes, como em Groaíras no fim de outubro, cabos de fibra óptica foram cortados em diversos pontos da cidade, causando prejuízo até em serviços de saúde, educação e segurança pública que usavam os provedores de internet atacados.
Secretaria da Segurança afirma manter protocolo contra ameaças e ataques
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que conta, desde julho de 2025, com um protocolo de ações específicas contra crimes de extorsão contra comerciantes.
A força-tarefa também engloba expulsões de moradores, definidas como "deslocamento forçado".
"A prática é registrada em vários estados do país e faz parte da atuação de grupos criminosos. Os crimes vêm sendo combatidos a partir do mapeamento, do monitoramento e da prisão dos suspeitos", pontua a pasta.
"Com o objetivo de interiorizar o combate às facções criminosas, a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) criou o Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), responsável pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) Fortaleza e por outras duas unidades: Draco Sul e Draco Norte", pontuou a pasta.


